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Aprendendo a investir com Peter Lynch

Que tal aprender a investir com alguém que conseguiu uma rentabilidade média de 29% em 13 anos? Essa rentabilidade transformaria R$ 10.000,00 em R$ 273.946,80 no período. Parece bom demais pra ser verdade? Pois Peter Lynch, enquanto gestor do fundo de investimentos Fidelity, dos Estados Unidos, conseguiu essa proeza. Qual o segredo dele para ser tão bem sucedido ao escolher as empresas em que investe? “Invista naquilo que você conhece”, ele diz. Simples, não é? Então aprenda mais sobre a filosofia de investimento de Lynch.

1. Invista naquilo que você conhece

Você acorda e vai se barbear. Passa um creme de barbear da Bozzano no rosto, marca cuja propriedade é da Hypermarcas (empresa com ações listadas na bolsa sob o ticker HYPE3). Se é mulher, pode passar um creme da Natura (NATU3). Veste uma camisa da Hering (HGTX3) e toma um iogurte da Vigor (VGOR3) no café da manhã. Toma, também, uma vitamina C que você comprou na farmácia Drogasil (DROG3), pra dar uma reforçada na imunidade. Usa uma palha de aço bombril (BOBR4) para lavar a louça do café da manhã e sai para o trabalho. No meio do caminho, percebe que seu carro, cuja lataria foi fabricada com aço da Gerdau (GGBR4), está sem combustível, razão pela qual você para rapidinho num posto de gasolina da Petrobrás (PETR4) e o abastece. Você pagou a gasolina com o cartão de crédito, numa maquininha da Cielo (CIEL3). Ao seguir em frente, você dá uma olhada na lataria do ônibus que está atrapalhando o trânsito e lê Marcopolo (POMO4), a empresa que produziu sua lataria. Ao chegar do trabalho, você liga seu computador Positivo (POSI3), com o qual, no meio do expediente, você acessa sua conta bancária no Banco Itaú (ITUB4). Depois do trabalho, dá uma passada para um Happy Hour no barzinho com os colegas do trabalho e toma uma cervejinha da Ambev (AMBV4). Ao retornar para casa, no fim do expediente, você acende a luz, que é fornecida pela CPFL Energia (CPFE3) – ou por outra empresa do setor, já que há dezenas com ações negociadas em bolsa. Antes de dormir, dá uma conferida no canal de tevê a cabo da Net (NETC4) e, se a noite prometer, pode usar uma camisinha da Jontex (cuja marca também é da Hypermarcas – HYPE3).

Pouca gente se dá conta, mas utilizamos no nosso dia-a-dia dezenas de produtos fabricados por empresas cujas ações estão listadas em bolsa. E achamos muitos desses produtos fantásticos – tão espetaculares que, muitas vezes, os recomendamos para nossos amigos e vizinhos, que passam a utilizá-los também. Para Peter Lynch, observar os produtos de que gostamos e tentar entender o porquê de gostarmos tanto deles é um passo importantíssimo para que alguém se torne um bom investidor. Se gostamos tanto de um produto ou serviço e acreditamos que é o melhor de seu setor, por que não aproveitar para também lucrar junto com a empresa que o produz?

Segundo Lynch, quanto mais você estiver familiarizado com uma empresa, e o quanto melhor você compreender seu negócio e o ambiente competitivo, melhores as chances de encontrar uma companhia lucrativa, capaz de levar a lucros fabulosos. Por esta razão, Lynch defende que o investidor aplique seus recursos em empresas cujos produtos ele já conhece e utiliza. Você trabalha com cosméticos e acha os produtos da Natura fantásticos? Por que, ao invés de se tornar um distribuidor da empresa, você não se torna um acionista dela? Você é farmacêutico e, por sua experiência, acha a administração da Drogasil espetacular e melhor do que a das concorrentes? Por que não investir nelas? No mercado, existem empresas de praticamente todos os setores. Por que não investir em alguma cujo mercado você conhece e saberia avaliar como ninguém?

2. Indicadores de análise

Embora Lynch considere o conhecimento que o investidor tem da companhia (às vezes, como consumidor dela!), importante, este é apenas o ponto de partida. A análise da empresa como investimento também depende de alguns outros indicadores e características essenciais, tanto qualitativos quanto quantitativos:

a) Aspectos qualitativos

* O nome da empresa é entediante (é, isso mesmo! A expressão que ele usa é boring!), assim como o serviço ou o produto prestado por ela. Ou então, a empresa faz algo desagradável, ou ainda há rumores de que a empresa está passando por um momento ruim. Tudo isso se reflete no preço da ação, que despenca e abre uma boa oportunidade de compra.

* A empresa é uma subsidiária de uma empresa maior, ou surgiu a partir de um processo de cisão. Quanto a estas empresas, Lynch sugere que o investidor verifique se funcionários e administradores da empresa estão comprando suas ações.

* A empresa está crescendo em um setor de baixo crescimento, porque indústrias de crescimento atraem mais investidores naturalmente, o que leva os preços de suas ações para cima.

* A empresa está em um nicho de mercado em que é difícil o surgimento de novos competidores.

* Os produtos ou serviços da empresa são consumidos em tempos de bonança e de crise econômica (pense nos produtos da Ambev ou nas companhias elétricas, por exemplo! Ninguém deixa de beber sua cervejinha ou de ligar a tevê mesmo nos piores momentos).

Poucas de suas ações são propriedade de instituições (como fundos de previdência ou bancos de investimento). Essas ações são negligenciadas pelos grandes players do mercado e, por isso, é plausível encontrar maiores pechinchas.

* A empresa está recomprando suas ações. Isso significa que a empresa confia em seu potencial e que considera seus preços atuais baixos. Além disso, a recompra de ações eleva o lucro por ação, gerando valor a seu acionista, que ganha um percentual maior do patrimônio da empresa.

Por outro lado, Lynch detesta empresas que tenham as seguintes características:

* Indústrias da moda.
* Empresas pequenas com grandes projetos, cuja competência ainda não foi verificada.
* Companhias lucrativas que diversificam suas atividades por meio de aquisições. O foco em sua área de atuação é essencial.
* Empresas com poucos consumidores.

b) Aspectos quantitativos

Evolução do lucro: Lynch valoriza empresas que têm um histórico crescente de lucros, já que os preços das ações não podem ficar por muito tempo descolados do lucro da empresa. Se o lucro sobe, o preço da ação também sobe!

Índice Preço por Lucro (P/L): O potencial de lucratividade de uma empresa determina seu valor, mas às vezes o mercado antecipa esse crescimento e supervaloriza uma ação. Esse índice ajuda a manter uma perspectiva isenta quanto ao preço da companhia.

O histórico do índice P/L: é importante estudar a relação histórica entre o preço e o lucro da empresa. Às vezes, um índice alto pode parecer um sinal de que o mercado está supervalorizando uma ação, mas na verdade o seu histórico é elevado mesmo.

O índice P/L médio do setor de atuação da empresa: também é importante estudar o P/L médio do setor da empresa. Ao comparar com outras empresas do setor, fica mais fácil verificar se se trata de uma barganha ou se o setor tem um P/L médio baixo de fato.

O índice P/L relativamente à taxa de crescimento dos lucros: é natural que empresas com melhor perspectiva de crescimento nos lucros tenham um índice P/L maior, mas a razão entre o P/L e a taxa de crescimento dos lucros indica se o P/L é justificado ou não. Para calcular essa razão, basta dividir o P/L pela taxa de crescimento. Por exemplo, uma empresa cujos lucros têm crescido consistentemente a uma taxa de 25% e cujo P/L está em 20, tem uma razão entre os dois indicadores de 0,8 (20 dividido por 25). Uma razão inferior a 1,0 indica que a empresa está subvalorizada (inferior a 0,5 seria excepcional!).

Razão da dívida em relação ao patrimônio: Quanto menor o total da dívida em relação ao patrimônio da empresa, melhor. Significa que a empresa tem condição de pagar o que deve e ainda investir em sua expansão.

Estoques: Outro indicador importante para Lynch é a tendência de evolução dos estoques. Se os estoques estão se acumulando, é um sinal de que a empresa não está conseguindo vender seus produtos, o que se refletirá nos lucros. Por outro lado, se os estoques estão começando a diminuir cada vez mais rápido, pode ser um sinal de que a empresa está se recuperando.

Há outros indicadores interessantes sugeridos por Lynch, mas acredito serem estes os principais.

3. Frases de Peter Lynch

Peter Lynch, assim como Warren Buffett, também é conhecido por sintetizar seus ensinamentos em algumas frases de efeito. Dê uma olhada em algumas que destaquei:

Embora seja fácil esquecer disso, uma ação não é um bilhete de loteria… é participação em um negócio.

Não busque por fundos.

Todo mundo é inteligente o bastante para investir em ações. Se você aprendeu a matemática da quinta série, pode conseguir.

Compre um negócio que qualquer idiota possa administrar – porque mais cedo ou mais tarde, um idiota o administrará.

Você deve aprender que existe uma empresa por trás de qualquer ação, e há apenas um único motivo pelo qual o preço das ações sobe. Empresas que deixam de fazer as coisas errado para fazê-las bem ou pequenas empresas que crescem e se tornam grandes.

Eu descobri que, quando o mercado cai e você compra na queda sabiamente, em algum ponto do futuro você estará feliz. Você não chegará lá por ler “agora é a hora de comprar.”

Quando o preço das ações está atraente, você as compra. Obviamente, eles podem cair ainda mais. Já comprei ações por $ 12 e que caíram até $ 2, mas depois chegaram a $ 30. Você simplesmente não sabe quando encontrou o fundo do poço.

4. Livros de Peter Lynch

Você gostou dos ensinamentos de Peter Lynch e quer aprender com ele? Lynch é um autor excelente, que escreve em inglês fácil, bastante compreensivo por um leitor mediano. Recomendo a compra dos livros dele, que são os seguintes:

Learn to earn

One up on Wall Street: how to use what you already know to make money in the market

Beating the Street

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