Drops de Arake #7 – Aluguel como investimento?
Comentário no post anterior:
Henrique,
Qual a sua opinião sobre o imóvel próprio não como investimento-lucro mas no sentido de trocar o pagamento do aluguel pelo pagamento da prestação? Visto daqui, sempre achei que morar em imóvel próprio é só vantagem, mas já ouvi pessoas (inteligentes, juro!) defendendo que a aplicação do valor gasto no imóvel retorna o valor do aluguel e ainda sobra e, considerando que o gasto e consertos do imóvel são sempre por conta do proprietário, que não vale a pena comprar e que é melhor morar de aluguel. Confesso que esse raciocínio é um pouco difícil pra mim, mas sei lá…
Eu sempre aprendo algo novo aqui e vejo as coisas por novo prisma, então achei que você era a pessoa mais indicada para perguntar isso.
:*
Você perguntou e eu respondo: DEPENDE!
Depende é ótimo, eu adoro essa palavrinha, né? Dá margem pra ser ambíguo, fingir que responde, mas na verdade é só enrolação, certo?
Não nesse caso.
Já comentei contigo, Carol (perguntadora da questão), que minha linha de pesquisa é a economia comportamental (com um pé na neuroeconomia) e um dos detalhes que percebemos é que as pessoas têm uma grande dificuldade em lidar com problemas do cotidiano.
Ao contrário do que o pensamento econômico (na verdade do pensamento ocidental tradicional como um todo) defende, o ser humano possui graves limitações cognitivas e não é totalmente racional. Assim, para tomar suas decisões, eles buscam atalhos mentais (heurísticas) para resolver problemas simples e complexos.
Existem boas e más situações para usar heurísticas e bons e maus modos para usá-las.
Investimentos financeiros são um bom exemplo de boa situação, mas normalmente as heurísticas utilizadas são ruins: todo mundo ACHA que sabe ou que faz investimentos conscientes ou que existem investimentos que são ontologicamente bons ou ruins, e não é verdade.
Em Brasília, por exemplo, os imóveis valorizaram numa fantástica taxa de 20 a 30% ano, mais ainda em determinadas regiões e, na minha opinião, inexplicavelmente.
Esse retorno nem a bolsa de valores dá, ou seja, o investimento inteligente em Brasília há 5 ou 10 anos era comprar um terreno/imóvel sentar em cima e esperar valorizar.
Com um retorno desses, a renda de aluguel vira um quebra-galho, um paga-contas, em vez de uma fonte de renda real.
E uma fonte de rendas ruim, já que se você quiser vender seu imóvel, o locatário tem um sem-número de maneiras de melar seu negócio.
Agora, se você mora em um local e paga aluguel correspondente a 1% (ou valores próximos) do valor do imóvel, em cem meses você pagou o valor do imóvel! Menos de dez anos. Um empréstimo na Caixa dá prazos de até 360 meses e o imóvel é seu, compreende? É só fazer as contas, tirar “noves fora”, que PROVAVELMENTE (depende dos juros ou do CET) é mais jogo trocar o aluguel por prestação de imóvel (sairá elas por elas).
Por outro lado, se seu aluguel custa em torno de 0,3% (ou valores próximos) do valor do imóvel, você o receberá de volta em 300 meses, certo? Só que, PROVAVELMENTE, a prestação do imóvel MAIS os juros dará um valor bastante superior ao do seu aluguel.
Mas, nesse caso, se você PODE arcar com a diferença do seu aluguel para o da prestação, PODE SER interessante você aplicar esse dinheiro em investimentos que dão um retorno interessante. Assim você monta uma poupança bacana para dar de entrada num imóvel, ou, quiçá, pagá-lo à vista, por que não?
Em suma, de fato ser o senhorio, o locador, implica em uma porrada de responsabilidades: gastos financeiros, depredação do imóvel, depreciação do valor do bem, custo de oportunidade (dinheiro está “empatado” em um investimento ilíquido e dificuldade de reaver o imóvel, se necessário). EU, Henrique, não gosto desse tipo de investimento. Imóvel no Brasil tem um monte de questões ideológicas por trás (direito à moradia, função social da propriedade, etc.) e é arriscado e paradão demais para o meu perfil de investidor.
Mas cada caso é um caso, aconselho a você, e os demais leitores, que procurem um consultor financeiro (de preferência desvinculado de bancos) para calcular e se informar melhor.
Abração!