Entendendo o perfil do investidor
As reportagens sobre investimentos e os gerentes de banco são unânimes em indicar que uma pessoa deve investir em ativos adequados ao perfil do investidor. Então, eles lembram de uma cartilha que diz mais ou menos o seguinte: se você tem um perfil conservador, não invista em ações; se você tiver um perfil moderado, invista uma parte do capital em renda fixa e no máximo uns 20% em ações; e se você tiver um perfil agressivo, invista no máximo uns 50% em ações e a outra metade em renda fixa.
Se você é uma pessoa cuidadosa, não invista muito em ações; e se você é aventureiro, invista nelas! Você fica tranquilo se perde dinheiro? Invista em ações! Ou seja, a idéia por trás desse modo de identificar perfis é a de que o perfil de um investidor é algo puramente psicológico: se o investidor é uma pessoa que psicologicamente gosta de se arriscar, deve investir em ativos mais arriscados, e se é um medroso, deve fugir deles.
Besteira. É, eu repito: besteira. O perfil do investidor é algo extremamente difícil de se definir, e depende de muito mais do que os gostos pessoais. Depende de uma combinação bastante complexa entre circunstâncias objetivas e subjetivas.
Vejamos os seguintes exemplos:
(1) o sr. João é um vendedor que tem um salário bastante variado, porque ganha comissão sobre as vendas. Além disso, o setor em que trabalha é bastante instável: ele pode ter emprego por 2, 3 anos e, de repente, pode ser demitido e ficar meses sem trabalhar. Apesar disso, é um sujeito bastante comedido que poupa o que pode.
(2) a sra. Maria é uma funcionária pública que ganha uma remuneração constante, e tem estabilidade. Sua renda é mais do que suficiente para assegurar um padrão de vida aceitável para sua família e ainda economizar uma quantia razoável.
Digamos que João tenha um perfil psicológico arrojado. Ele gosta de se arriscar, e não se preocupa caso perca seu dinheiro. Por isso, investe suas economias integralmente em ações. Não parece que seu futuro será promissor, parece? Em um simples mês, ele pode ser demitido e terá que vender suas ações ao preço que estiverem, para poder se sustentar. Se for em um período de alta, ótimo! Terá um bom lucro e poderá viver algum tempo dignamente até conseguir um novo emprego. Mas pode acontecer o contrário: se vender as ações numa crise financeira, João pode ter um prejuízo enorme, e terá que viver com um padrão de vida infinitamente inferior até conseguir novo emprego.
Por outro lado, digamos que Maria tem um perfil psicológico conservador. Ela não se “arrisca” de jeito nenhum. Só confia na poupança para “investir” seu dinheirinho. Ela nunca irá precisar daquele dinheiro, porque já tem estabilidade, casa própria e tem um plano de saúde muito bom para si e para sua família, e paga um seguro de vida que deixará seus filhos muito bem em caso de falecer, além de ter economias suficientes para deixar sua família numa condição de vida fantástica. A situação financeira de Maria também não é muito boa, não é? Ela está deixando de lado a oportunidade de ter, daqui a alguns anos, uma vida financeira espetacular, para se contentar com uma vida modesta. Não vai passar fome, mas dificilmente vai realizar seus sonhos de passar um mês inteiro na Europa, ou de ter uma aposentadoria realmente digna.
Como se vê, a situação dos dois investidores é contraditória.
João deveria ter uma reserva muito boa em investimentos conservadores, o suficiente para que se mantivesse por 1 ou 2 anos sem emprego, antes de pensar em investir em ações. Somente assim ele teria a tranquilidade necessária para investir em ações pensando no longo prazo, sem que as intempéries do dia-a-dia o afetem.
Maria, por sua vez, poderia investir todo o seu patrimônio excedente em ações que seu padrão de vida não seria alterado de nenhuma maneira. Afinal, ela já tem casa própria e, se falecer, seu marido receberia uma pensão razoável, além do seguro. Ela poderia guardar um dinheiro para eventuais necessidades cotidianas em renda fixa e investir o restante em ações, e daqui a 10 ou 15 anos, poderia ter uma rentabilidade fantástica – muito superior ao que teria na poupança. O suficiente para que realizasse seus sonhos sem qualquer preocupação.
Como se vê, não basta que Maria seja conservadora ou João arrojado para que seu perfil seja definido. É preciso uma conjunção de fatores objetivos e psicológicos para definir o perfil do investidor. Mesmo que Maria seja extremamente conservadora, ela pode investir um quinhão de seu patrimônio em ações com tranquilidade. E mesmo que João seja extremamente arrojado, ele precisa ter uma reserva em renda fixa antes de investir em ações.
Quando conjugamos as circunstâncias de ambos os investidores, temos o seguinte:
1) João tem uma circunstância que exige que ele sejainicialmente conservador, e progressivamente evolua para um perfil moderado. Apenas após acumular um patrimônio substantivo nessas condições é que ele deve pensar em assumir uma postura mais “arrojada”. Antes, deve acumular o suficiente para viver razoavelmente bem por 1 ou 2 anos antes de partir para as ações.
2) Maria, por sua vez, tem uma condição financeira que exige uma postura mais agressiva, para construir um patrimônio espetacular. Já seu perfil psicológico é extremamente conservador, exigindo que ela tenha uma boa reserva em investimentos menos voláteis. Nessas condições, o ideal é que ela assuma um perfil moderado, mantendo um percentual razoável em ações, e um percentual em renda fixa. Prefiro não opinar sobre os percentuais que Maria deveria investir em cada tipo de investimento, já que é uma decisão pessoal. Mas, de qualquer modo, o que fica claro é que ela não pode deixar seu dinheiro investido apenas na poupança, se ela não quer que seu dinheiro seja utilizado pelo SFH, e não por ela.
Como se vê, não é fácil definir o perfil de investidor. Mas não confie apenas no seu perfil psicológico: verifique que tipo de perfil é compatível com suas características psicológicas e com seu patrimônio. Alguém que tem R$ 10.000.000,00 não precisa ser conservador: só o valor que recebe de dividendos caso invista apenas em ações é mais do que suficiente para garantir um padrão de vida bastante razoável!